sexta-feira, 15 de junho de 2007

Tríade das Sombras

I — Penumbra

Procuro pela noite mais escura
No cárcere simbólico da vida
E assim alargo minha sepultura
Correndo atrás da treva proibida.

Espero todavia que meus passos
Me guiem através de outro caminho
Distante desses pútridos espaços
Aonde fraco e pálido eu definho.

E vago pelas ruas solitário
Gritando meu pavor em cada porta,
E às vezes adormeço num ossário
Pois nada nesse mundo me comporta!

Um dia a escuridão vai me levar
E nela encontrarei o meu lugar...


II — Queda

Diante da verdade tenho medo
E assustam-me as paixões silenciosas
Que escrevem nos sepulcros um segredo
E plantam só jardins de negras rosas.

E apraz-me ver nas curvas do caminho
Cadáveres roídos pelo crime
De ter provado o sangue pelo vinho
Num grito que pavor algum exprime.

Porém se porventura me entristeço
Escondo-me num túmulo profundo
E lá as trevas me viram pelo avesso
E volto sorridente para o mundo!

Sabei que se de noite choro e cismo
A sombra sempre foi o meu abismo...


III — Ascensão

O Sol tornou-se tudo que abomino
E grito de pavor pela manhã
Ao vê-lo trespassar o véu divino
Que a noite costurou em seu afã.

Anseio pelas horas mais escuras
Veladas por demônios sonolentos —
As horas em que os medos e loucuras
Espalham seus segredos e tormentos.

Somente a noite cura as minhas dores
E dá-me aquela força desmedida
Capaz de derrotar os mil pavores
Que a luz do dia impõe à minha vida!

Ah, sofro de um terrível desatino:
Viver na escuridão, eis meu destino...

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