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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Saudade

Enquanto o meu corpo enfim descança
Sob as frias lajes sepulcrais
Veloz noite adentro o Pavor avança
Semeando silêncios e vendavais,
Onde aos prantos busco a lembrança
Daquele tempo que não volta mais.

(14/06/2011)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Ela

Sutil megera de olhos mudos
Em cujos braços senti frio;
No vão de teus seios desnudos
Meu riso encontra o desvario.

Nas minhas veias teu lamento
É o timbre rouco do trovão;
Teu beijo rude e pestilento
Transforma amor em perdição.

Tudo que brota em teu deserto
É desespero ou apatia,
E mesmo longe ou bem de perto
Teu nome não sei todavia.

Com lábios quentes me devora
E igual às grandes meretrizes
Veloz me segues vida afora
Deixando marcas, cicatrizes.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Apenas o Final...

...de três sonetos que jamais logrei terminar.

I

Mas vítima da atroz Melancolia
Passei a amar as trevas como a Lua
Até que ao despertar de um triste dia
Em pânico adentrei a cova nua
Enquanto do alto um anjo me advertia:
— Na morte toda dor se perpetua!

II

Da taça de veneno à tumba escura
Procuro a Morte aos prantos, indeciso.
Talvez no meu suicídio haja a cura,
No túmulo o descanso que preciso;
Porque na escuridão da sepultura
Jamais me lembrarei do teu sorriso.

III

Caminho pelo vale lamacento
De um mundo que morreu de inanição
Enquanto no silêncio do momento
Contemplo a nova presa da Aflição:
Diante de um banquete suculento
Satã devora o próprio coração.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Solitude

De mágoas e silêncios me recubro
E cego fiz da dor felicidade
Porém a sós, diante da verdade,
Nos olhos uma lágrima descubro.

Envolto pelo manto da saudade
O meu sangue se torna menos rubro
E nessas noites gélidas de outubro
Caminho pelas ruas da cidade.

Procuro algum afeto e companhia,
Mas eis que Satanás me arrasta então
Às tumbas da necrópole sombria!

E assim após vagar sem direção
No espelho de uma lápide vazia
Contemplo a minha própria solidão...

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Suicídio Nº 2

Com medo de sonhar passei os dias,
E mesmo aquele amor outrora ameno
Cavou em meu semblante mais sereno
Um poço de tristezas e agonias.

Cruel, a Solidão me fez pequeno,
Pisou as minhas frágeis alegrias
Até que numa dessas noites frias
Enfim provei do cálice o veneno.

À Morte a minha boca disse sim
Sorvendo do Sepulcro os mil punhais;
Mas quando a minha dor chegava ao fim,

Ouvi ao longe vozes infernais
Zombando: — Fácil é morrer assim!
Difícil é viver um pouco mais...

quinta-feira, 27 de março de 2008

Passeio Macabro

Num dia de domingo sobranceiro
Depus o meu pavor numa caleça,
E disse então ao fúnebre cocheiro:
— Conduza-me p'ra onde tudo cessa!
Assim cheguei ao catre derradeiro
Levado pela minha estranha pressa,
Lugar em que uma placa ao caminheiro
Avisa: "Cemitério da Promessa".

quinta-feira, 20 de março de 2008

Also Sprach Zarathustra

ou Zoroastro desce a Montanha


Tentei muitas vezes em vão
Plantar uma rosa neste mundo,
Mas a semente em meu coração
Afogou-se num lamaçal imundo.

O meu sorriso levou o vento,
Esvaziou-se a taça da minha alegria,
Hoje procuro algum alento
Na luz que ilumina o meu dia.

Contemplo o vasto deserto
De meus sonhos natimortos:
Sei que sigo um caminho incerto,
Que meus passos são sempre tortos.

Com certeza o meu canto
Há de enfim ficar mudo,
E hei de perder o encanto,
Sendo mais triste e carrancudo.

Mas talvez, com alguma sorte,
Eu ainda tenha um motivo para viver;
Ou quem sabe na hora da morte
Eu conheça um novo amanhecer.

Trago comigo a certeza
Que não importa aonde eu for
Se eu encontrar alguma beleza
Lá também estará a dor.

Mas vem que é hora de partir,
Deixar para trás a montanha
Sabendo que embora eu queira sorrir
Hoje a tempestade me acompanha.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O Vitorioso

Ao Senhor dos Exércitos, a ele santificai; e seja ele o vosso temor e seja ele o vosso assombro.
— Livro de Isaías (Capítulo 8, verso 13)


Juntei-me às legiões da Violência
Tingindo de vermelho os céus e a Terra
Na crença que somente a Cova encerra
As chaves para a humana onipotência.

Acaso a minha sanha vos aterra?
Sabei que em minha atroz sanguinolência
— Negando às minhas vítimas clemência —
Venci de novo e vou vencer a guerra!

Mas eis que sem aviso, qual gangrena,
Na hora do triunfo o peito falha
E lá do Inferno Lúcifer me acena.

Agora que o Sepulcro me amortalha
Pergunto-me se enfim valeu a pena
Jamais haver perdido uma batalha...

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Ícaro

Ao fim da juventude só me resta
Olhar para as lembranças do passado
E ver que em meu semblante um ser alado
Pintara as mil promessas de uma festa.

A ruga de uma rima sem pecado
Ainda não pesava em minha testa;
E o grito que na dor se manifesta
Seguia-me em silêncio, derrotado.

Naqueles dias prenhes de alegria
O Sol me acompanhava como um pai
Que crê no alvorecer de sua cria,

Mas hoje em minha vida a noite cai
Porque amei o encanto e Poesia
Que existe num sorriso que se esvai.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Dead Feelings

When I go through the mist
I see ghosts passing by
And like the dark clouds
Their tears tell me a lie.

Some of them never lived,
Some of them never die
And many spend the night
Looking into the sky.

Do they want to be stars
Wandering sad and lone
Right into the Abyss
From where they've come?

O dear ghosts of my heart,
To overcome this pain
I must rise from the tomb
And never dream again!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Canção Matutina

Àquela que jaz em meu coração


Sinto a pele gelada como neve
Toda vez que a alvorada pressagia
A chegada de mais um novo dia
Nesta minha existência triste e breve.

Pois jamais escutei a melodia
Que no túmulo a tua pena escreve,
E nas noites de sono sempre leve
Ouço ao longe gemidos de agonia:

São as tuas canções que sentem frio
Sob a terra que achou por bem prendê-las
Entre as grades de um cárcere vazio,

Mas assim que o pavor emudecê-las
Ficará para sempre mais sombrio
Este céu de pouquíssimas estrelas.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Sobre o Fim

Ao ver aproximar-se a Eternidade
E os céus escurecerem sem razão,
Ergui a Deus a dor de uma oração —
Um canto de silêncio e verdade.

Tentei negar o medo, mas em vão,
E até sorri apenas por vaidade
Na hora em que a sombria tempestade
Tingiu de negro as cores da estação.

Assim, se em teu momento derradeiro
A tua fé falhar por um instante
E nada mais restar do amor primeiro,

Recobra as tuas forças de gigante
E sê como um espírito guerreiro
Que impávido proclama:- Sempre avante!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Pesadelo

Self Portrait of a Newborn Fear


Na minha vida o sonho foi em vão,
Por isso trago em meu soneto aflito
A imagem de um fantasma, um ser maldito,
Que ruge nos sepulcros como um cão.

A Morte fez da minha voz um grito —
Um deus que se perdeu na escuridão,
E assim do meu estreito coração
O sangue escorre rumo ao infinito.

Agora sopra um vento mais gelado
E a velha angústia surge na distância
Trazida por algum atroz pecado.

Na minha língua sinto o fel da ânsia
E o medo que me faz sofrer calado
Mutila o que restou da minha infância.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Personal Tragedy

I've found my place in the cold rain,
So why would I ever dream again?

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Many

I have everything I need,
And a bit more...
A strange feeling of despair,
The sacred kiss of love,
The day's secret dream —
I have it all,
And half the time to enjoy it.

I have stars I never touched,
Children I never kissed
And fears I never overcame.
I have a beautiful night,
A lonely heart
And eyes full of tears.

Yes,
I have many a sorrow
To share with you.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Ao Mar!

A minha história nunca foi contada
Nas páginas dos livros e jornais;
Tampouco vi belezas outonais
Nas águas que me prendem neste nada.

Mas hoje rogo às ondas e corais
Que narrem minha morte desgraçada,
E ao mar que me serve de morada
Entrego meus resíduos sepulcrais...

Nereu, senhor do abismo soberano,
Recebe um coração a decompor
Nos vãos de teu sorriso desumano,

E põe nas minhas rimas essa dor
Agora que arremesso ao oceano
Missivas à procura de um leitor.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Fracasso

Nasci como se entorna sobre a Terra
O líquido de um cálice fatal —
E foi então que amei um ideal,
Mas no ato de nascer bastante se erra.

Assim, nos anos tristes do final
De um século que tanta dor encerra,
Vaguei por entre as páginas da guerra
Em busca de uma morte triunfal.

Nos pântanos do medo me perdi,
E errei por muitos anos sem um norte
Até que algum pavor me trouxe aqui.

Por fim, deixado à minha própria sorte,
Com lágrimas nos olhos me senti
Inábil para a vida e para a morte.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Matusalém

Nenhuma ruga grave ou irrisória
Fará do meu sorriso de desdém
Um hino que se canta lá no além
Enquanto o Sol se põe na minha história.

Que importa se se vive mais de cem¹
Na hora que lembramos — Ó memória! —
Que, sempre na procura de uma glória,
No afã de se viver a Morte vem?

Tornar-se velho foi o meu pecado,
A culpa cuja dor me faz sangrar
E o crime pelo qual serei amado.

Na infância conseguia até voar,
Mas hoje permaneço aqui parado
Com medo de chegar a algum lugar.


¹ Cf. livro de Gênesis, capítulo V, verso 27: "E foram todos os dias de Matusalém novecentos e sessenta e nove anos, e morreu."

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Procrastinação

A Morte me atrai a si,
E assim prossigo no afã
De deixar para amanhã
A vida que não vivi.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Ao Meu Primeiro Amor

Pintei em tua noite mais sombria
Estrelas que jamais se tornarão
O fúnebre fantasma da paixão
Que mudo confessei-te um certo dia.

Em troca me feriste sem razão
Negando a mim a única alegria
Que tive nesses anos de agonia:
Amar-te no louvor de um verso vão.

Mas hoje os vermes hão de decompor
Aquele teu sorriso que me encanta,
E aos prantos rogarás o meu amor.

Amiga, mesmo assim de que adianta
Erguer aos céus um grito de pavor
Agora que o silêncio se agiganta?